sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Dois segundos podem mudar a sua vida

Não por acaso
*****
[Brasil, 2007]

É difícil saber por onde começar a falar sobre este filme. É surpreendente na execução, no roteiro, em tudo. Não por acaso possui aquela aura quase mágica, que poucos filmes têm. Um exemplo claro dessa aura: Amélie. O surpreendente mesmo é ver que trata-se de um filme nacional atingindo o patamar que parecia intocado.
O tema tratado aqui é imprevisibilidade que toca na ferida de dois homens que têm a previsibilidade como regra do seu dia-dia. Tanto Ênio [Leonardo Medeiros], quanto Pedro [Rodrigo Santoro] veêm suas lineares rotinas serem abruptamente quebradas por conta de um acidente que poderia ter sido evitado por dois segundos. Sim. Dois segundos. E não vou estragar o choque que é a transposição de cenas entre o que aconteceria e o que aconteceu por conta destes dois segundos. O brilhantismo da cena se dá pela banalidade do fato, e como para você, espectador, não faria a menor diferença até que o ato é mostrado com dois segundos de diferença.
Ênio vê-se com uma filha para se aproximar. E Pedro, sem aquela que era sua amada, vê-se solitário o suficiente para não levantar-se da cama. E mais uma vez, o inesperado acontece. Ele precisa retornar ao apartamento que sua namorada alugou. E conhece Lúcia, a atual moradora.
A partir daí, o filme se enche de simbolismos que passam dispercebidos pelos olhos mais desatentos. Sem ficar piegas em nenhum momento. A conversa de pai e filha diante da janela iluminada dentro de uma sala fria é, para não exagerar, fantástica.
Fotograficamente falando, é brilhante o encaixe de fatos, com posicionamentos, detalhes... Tudo ganha mais força.
Não posso deixar de ressaltar o elenco. De primeiríssima linha. Em especial os principais, Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros. Dão um banho. E fazer tudo parecer ainda mais denso, e real. Deixam-se levar pelos personagens, e entregam-se tanto que confundem-se com eles.
É um filme sensível. E que merece ser visto. Imprevisivelmente, claro.
Para mim é o que de melhor tem sido feito no cinema nacional nos últimos tempos. De certeza que têm um lugarzinho na estante, como um dos favoritos. De todos os tempos.

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