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Espartalhões
zero, completo e absoluto
[EUA, 2008]
Válido frisar: fui ligeiramente forçado a assistir esta tranqueira. E se eu tivesse, simplesmente ignorado a tv e olhado para o céu, sairía lucrando.
Não trata-se de uma crítica. Não existe palavra no mundo que descreva a ruindade desse longa-metragem [me recuso a chamar isso de filme]. Dessa vez trata-se de um desesperado apelo.
Quando hollywood resolveu zoar a si própria, ninguém a levou a sério [claro]. Tudo começou com um certo 'Todo mundo em pânico' [Scary movie, no original]. Em pânico deveríamos ter ficado nós. Mas não. Até que o filme brilhava com tiradas inteligentes sobre um gênero que, na época, não conseguia livrar-se dos clichês e vícios que ele próprio criou: o terror.
A bilheteria foi incrível. E a indústria viu ali uma maneira de ganhar grana fácil. Não tardou um Scary Movie 2. E ele entregou de cara as fraquezas de gênero que acabava de ser criado: a auto-sátira. A película era tão inferior a original, que o terceiro capítulo demorou a engrenar. E os seus 'ótimos' roteiristas se partiram. Desde então, nasceu uma série de Movies que não deveriam ter existido. Eles conseguem manchar a si mesmos, a hollywood inteira, ao público, a tudo!
Tratam-se de filmes que roteiros ruims, atores ruims, diretores terríveis, fotografia péssimas, cenários idem. E sem um pingo de inovação em lugar algum.
Mas deixe falar especificadamente deste 'Espartalhões'. Mesmo com tudo isso, algumas [raras] piadas funcionariam. Não fosse o fato dos diretores não saberem contar uma piada e os elementos que fazem com que uma piada funcione. Há o erro de timing [a piada é mais longa do que deveria ser]. De foco [frisa-se a piada mais de uma vez em pouquíssimos quadros]. E primordialmente, o erro supremo, explica-se a piada [como já não bastasse ela ser continuadamente repetida pela câmera].
Me recuso a comentar as piadas ridículas que se encontram [e que fazem questão de ter todos erros citados acima], como a piada do poço, a infinita piada sobre a duvidosa sexualidade dos espartanos [ridícula] e os elementos inteiramente fora de qualquer contexto.
Mas, a tristesa maior, é saber que este tipo de filme ainda movimenta milhões a saírem de suas casas e pagarem para assistir a isso. O lucro desse tipo de lixo vem sendo superior duas, três vezes ao seu custo de produção. Resta saber se isso é resultado de uma época em que os trailers têm costumado ser melhores que os filmes.
Pior: os estúdios preferem investir nesse estúpido dinheiro fácil e assim excelentes produções deixam de ser feitas, sem dúvida.
Agora, será mesmo que o público não está de saco cheio? E será mesmo que os estúdios, para cada 'paranoid park' precisem de centenas de lixos como este? Questões. Quero respostas. E rápido.
Não por acaso*****
[Brasil, 2007]
É difícil saber por onde começar a falar sobre este filme. É surpreendente na execução, no roteiro, em tudo. Não por acaso possui aquela aura quase mágica, que poucos filmes têm. Um exemplo claro dessa aura: Amélie. O surpreendente mesmo é ver que trata-se de um filme nacional atingindo o patamar que parecia intocado.
O tema tratado aqui é imprevisibilidade que toca na ferida de dois homens que têm a previsibilidade como regra do seu dia-dia. Tanto Ênio [Leonardo Medeiros], quanto Pedro [Rodrigo Santoro] veêm suas lineares rotinas serem abruptamente quebradas por conta de um acidente que poderia ter sido evitado por dois segundos. Sim. Dois segundos. E não vou estragar o choque que é a transposição de cenas entre o que aconteceria e o que aconteceu por conta destes dois segundos. O brilhantismo da cena se dá pela banalidade do fato, e como para você, espectador, não faria a menor diferença até que o ato é mostrado com dois segundos de diferença.
Ênio vê-se com uma filha para se aproximar. E Pedro, sem aquela que era sua amada, vê-se solitário o suficiente para não levantar-se da cama. E mais uma vez, o inesperado acontece. Ele precisa retornar ao apartamento que sua namorada alugou. E conhece Lúcia, a atual moradora.
A partir daí, o filme se enche de simbolismos que passam dispercebidos pelos olhos mais desatentos. Sem ficar piegas em nenhum momento. A conversa de pai e filha diante da janela iluminada dentro de uma sala fria é, para não exagerar, fantástica.
Fotograficamente falando, é brilhante o encaixe de fatos, com posicionamentos, detalhes... Tudo ganha mais força.
Não posso deixar de ressaltar o elenco. De primeiríssima linha. Em especial os principais, Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros. Dão um banho. E fazer tudo parecer ainda mais denso, e real. Deixam-se levar pelos personagens, e entregam-se tanto que confundem-se com eles.
É um filme sensível. E que merece ser visto. Imprevisivelmente, claro.
Para mim é o que de melhor tem sido feito no cinema nacional nos últimos tempos. De certeza que têm um lugarzinho na estante, como um dos favoritos. De todos os tempos.
***The Spiderwick Chronicles [Eua, 2008]As Crônicas de Spiderwick é uma aula para filmes infanto-juvenis. Baseado na série de livros homônima, Spiderwick é daqueles filmes que mostram que nem tudo em Hollywood está perdido.
O filme mostra uma família [composta pela mãe, a filha mais velha e os gêmeos mais novos] se mudando para uma casarão no meio do nada. Jared, um dos gêmeos, encontra um misterioso. Trata-se do Guia de Campo escrito por Arthur Spiderwick. Arthur coletou absolutamente todas as informações sobre os seres mágicos existentes e os catalogou nesse livro. Tal livro é o objeto mór de desejo do maligno Mulgarath. Ele quer usar as informações do Guia de Campo para dominar todas as criaturas mágicas existentes. Tal livro estava protegido pelo pequenino Tibério desde que Arthur se foi. A reabertura do Livro, desperta novamente os planos de Mulgarath, e ele está agora, atrás do gêmeos para tomar posse do Livro e botar o seu plano em prática.
Não parece ser o roteiro mais criativo do mundo. De fato, não é. O que 'Spiderwick' possui é encanto. Muito por sinal. Isso se dá a uma soma de fatores: Freddie Highmore prova, novamente, ser um excelente ator mirim. Seu carisma é notável. Some a isso o fato dele interpretar os gêmeos Jared e Simon e empregar a eles traços que não deixam a diferença entre eles se limitar ao figurino.
As criaturas mágicas são de uma beleza ímpar e demosntram um alto grau de realismo. A sensação de que existem de verdade e foram usadas a filmagem e muito grande, tamanho o carinho com que foram desenhadas e inseridas no filme.
Fotograficamente falando, verás um dos mais encantadores filmes infanto-juvenis já feitos. Ligeiramente sombrio, sem parecer assustador.
Mas nem tudo são flores em 'Spiderwick'. Freddie Highmore é sim um ótimo ator e a sensação de que todos à sua volta não estão a sua altura é enorme. Os méritos de atuação são inteiramente dele. E só.
A condução de roteiro é apressada. Fica nítido que o material em que o filme se baseia é extenso, e lotado de informações e detalhes. Material que permitiria a criação de uns dois filmes, com folga, sem deixar o roteiro apressado ou vagaroso. Tudo é explicado muito rápido e acontece em sequências que quase se atropelam. Para os menores, a não repetição de certos pontos do roteiros pode os deixar perdidos na trama.
Fora esses pontos, fica a sensação de um filme que tnha tudo para ser melhor. Mas deixou-se escorregar talvez, no próprio medo de se tornar algo grandioso demais.
Uma coisa as falhas não tiram de 'Spiderwick': o encanto. O mundo fantástico é relatado e demonstrado de maneira incrivelmente envolvente.
Você provavelmente vai entender o que digo quando ver as criaturas 'flor' pela primeira vez.
Merece ser visto. De verdade.
E que ele seja visto e revisto pelos criadores de filmes infanto-juvenis. Mesmos com seus errinhos, Spiderwick dá de 20 nas atuais produções do gênero.